Escrito por Cemitério de Automóveis às 16h07
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O grande escritor Tadeu Sarmento esteve no Teatro do Centro da Terra na última sexta assistindo o nosso espetáculo "Homens, Santos e Desertores" e escreveu um texto sobre a peça e postou no seu blog. Transcrevo o que ele escreveu aqui. Fico orgulhoso de ter um espectador do naipe dele. Valeu, Tadeu.
ALGUNS NEM TÃO DESERTORES
“Homens, Santos e Desertores”, peça que está em cartaz no Teatro Centro da Terra, localizado na rua Piracuama, número 19, próximo à estação de metrô Sumaré, seria apenas mais uma das inúmeras peças encenadas pelo grupo Cemitério de Automóveis, não fosse por um pequeno detalhe. Com texto de Mário Bortolotto, direção de Fernanda D’Umbra, e atuação de Gabriel Pinheiro e Mário Bortolotto, “Homens, Santos e Desertores” não é Teatro, mas Cinema. Mas como, algum primeiro leitor desavisado perguntará, afinal de contas, Mário Bortolotto, um dos maiores dramaturgos do nosso país, é um homem de Teatro, há mais de vinte anos. Explico: cientificamente, a peça é um filme! Cientificamente! E quando digo cientificamente estou me referindo à definição de que o Cinema é uma Ciência, e uma Ciência que produz a ilusão falsa do movimento através da impressão de Luz e Som no fotograma. Mas o Cinema originou-se no Teatro, mais especificamente no Teatro de Sombras Chinês, dirá um segundo leitor obviamente mais culto do que eu e mais pé no saco ainda. A ele responderei o seguinte: então me desculpe, eu me corrijo, “Homens, Santos e Desertores” é uma peça de Teatro. Mais aí um terceiro leitor pode ser introduzido no texto, afinal, gosto de escrever textos polifônicos, com a seguinte pergunta: mas Tadeu de Melo Sarmento, você não estaria querendo dizer que a peça que você assistiu ontem é na verdade, uma mistura das duas artes, Teatro e Cinema?
É, talvez eu esteja querendo dizer isto!
Um garoto com problemas familiares e de aceitação social, e um velho ex-seminarista amargo e desiludido se encontram no palco. Não há explicação posterior de como os dois se conheceram antes, eles simplesmente “acontecem” juntos quando as luzes se acendem, como se sempre houvessem estado lá. O cenário, composto por objetos triviais como livros, mesa, cadeiras, fogão, latas de café e chaleira para esquentar água, acontece junto também, reforçando a idéia de que sempre esteve lá, coexistindo com os protagonistas, como se não existisse nada além da circunscrição específica daquele ambiente onde os olhos do espectador rapidamente se acostumam a olhar com familiaridade depois de ajustados à variação das luzes que pincelam a cena. Isto, é sobre as luzes que quero falar, mas antes quero dizer como todos os objetos em cena interagem com a narrativa, como parecem compor juntos cada ação das personagens; seja a mesa onde o garoto batuca com os dedos incomodado e tímido diante da presença esmagadora do velho ex-seminarista, seja a cadeira onde este se senta para folhear um livro enquanto o garoto enche seus ouvidos com lamentações existenciais das mais diversas, seja o próprio livro folheado, ou a chaleira com água fervendo no fogão corroborando com seu chiado para o clima tenso de todo o diálogo, enfim, tudo em cena parece pontuar a solidão, a angústia, a urgência e o desespero daquelas duas ilhas isoladas tentando em vão se comunicar. Bonito não? Ilhas isoladas! E as luzes? Ah, sim, as luzes!
A iluminação é essencial na peça, é ela quem recorta cena por cena, diálogo por diálogo, exatamente como uma película montada numa moviola. As luzes se apagam, e quando se acendem, há um outro diálogo, uma nova cena, num outro tempo. Mas todos os objetos permanecem no palco como na cena anterior, dando a impressão de um presente contínuo ou, como no Cinema, de uma movimentação ilusória. Sabemos que o tempo é outro por causa do discurso das personagens. O discurso muda, desenvolve-se, evolui para uma exasperação que atinge seu violento paroxismo no final. O restante da composição permanece fixa, imutável, indiferente. Esta montagem constrói lapsos de tempo como se seguisse a lógica de um sonho, uma espécie de fantasmagoria sem passado fixo, mas construído por uma sucessão fluída de momentos presentes, constantes.
E as duas personagens “acontecem” neste ritmo alucinatório e induzido para mover-se sem alterações no ambiente. O mais jovem quer falar, quer expor seus problemas, tem sede de conhecimento e de comunicação. O mais velho prefere o silêncio, a indiferença, não tem mais sede de nada e nem espera mais nada de ninguém. É atormentado por um passado que, embora desconstruído na narrativa, sempre volta a feri-lo através das lembranças, e isto porque a memória não respeita nenhum tipo de convenção. Apesar de totalmente diferentes, eles estão ligados de alguma forma, de alguma forma eles são necessários um ao outro. O mais jovem está em processo de crescimento, mas ainda tem uma individualidade orgulhosa que o impede disso. O mais velho já passou por tudo isto, já viu este filme um milhão de vezes, e parece querer ajudar o garoto a crescer, mesmo que seja doloroso para ele este processo, como de fato será. “Homens, Santos e Desertores” fala sobre amizade, sobre ritos de passagem, honestidade, generosidade e convicções amargas. Ontem, enquanto assistia à peça, cheguei a ter e leve impressão de que ela era, na verdade, um monólogo! De que na verdade, o homem mais velho e ex-seminarista conversava consigo mesmo, diante de um espelho, e de um espelho onde via refletido o seu passado, personificado na figura do garoto. Talvez este reflexo fosse o que os ligasse de alguma forma. Talvez o garoto fosse, de fato, tudo o que velho ex-seminarista de cabelos brancos havia sido antes de se tornar amargo, cínico, indiferente. Antes de se tornar o Homem, o Santo e o Desertor, afinal de contas, explícitos no título da peça. Talvez não, talvez eu esteja ficando louco, afinal, Mário Bortolotto não é homem dado a estes psicologismos. É um moralista na verdade, e quando digo moralista digo no sentido de Rabelais, de Henry Miller, de Céline. No sentido de que, em todas as peças que li dele, e também nesta que assisti ontem, há sempre uma personagem com um discurso de salvação, em meio ao vazio e ao absurdo que Bortolotto descreve com a exatidão fria do observador. O problema é que estas personagens renitentes não conseguem comunicar seus discursos a não ser através de um comportamento desregrado e, no mais das vezes, violento e suicida. É como se elas se oferecessem em sacrifício por absoluta falta de compreensão. Quando leio ou assisto às peças de Bortolotto eu penso em Diógenes, eu penso em Sócrates, em Martinho Lutero, em Cristo, em Jack Kerouac. Em beatitude e sacrifício, enfim. Eu acho que você está ficando louco, um quarto leitor poderá dizer ao ouvir tamanhas sandices, ao que responderei: talvez, talvez, mas vê se não me enche o saco, e vá assistir à peça, para tirar suas próprias conclusões! E vá rápido, porque “Homens, Santos e Desertores” só fica em cartaz esse mês! Todas as quintas e sextas, às 21:30!
(Tadeu Sarmento)
Escrito por Cemitério de Automóveis às 14h47
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